O comercial “Feito para pertencer”, da KLAN CUSTOM, não começou numa filmagem. Começou num acervo de imagens dos produtos. Neste texto eu mostro o fluxo inteiro: a ideia, a curadoria das imagens, o roteiro e o storyboard, as cenas desenhadas uma a uma, as fotos que ganharam movimento com IA, a montagem no ritmo da trilha e as duas versões que saíram do mesmo material.
Quase todo vídeo publicitário que as pessoas imaginam começa com uma câmera, uma equipe e um dia de gravação. Este começou de outro jeito: com imagens paradas. O projeto partiu de um acervo de fotos editoriais dos produtos da KLAN CUSTOM — coletes, jaquetas, camisas, moletons — e a pergunta foi se dava para transformar esse acervo num filme que tivesse alma de comercial, e não de catálogo.
Deu. E o caminho até o filme final é o que eu quero mostrar aqui, etapa por etapa, porque ele diz muito sobre como eu trabalho: primeiro a ideia, depois a imagem certa, e só então o movimento.
A ideia: Klan quer dizer clã
Tudo partiu do nome da marca. Klan quer dizer clã, e ninguém compra a entrada num clã: é reconhecido por ele. Por isso o filme não fala de tecido, de costura nem de preço. Fala do momento em que alguém olha para outro motociclista na estrada e percebe que é da mesma família. A roupa é o sinal visível desse pertencimento — é por isso que ela existe.
Dessa ideia saíram o tom e a assinatura. O tom é de manifesto: poucas palavras, ditas com firmeza e sem pressa. E a assinatura virou o título do filme: “Feito para pertencer.” Nada de oferta, de “compre agora” ou de preço. A marca se apresenta pelo que representa.
Antes do filme, o acervo — e a curadoria
O ponto de partida eram 131 imagens editoriais, várias para cada produto. Antes de pensar em cena, eu fiz o trabalho de curadoria, que é onde boa parte da qualidade do filme se decide. O critério principal foi realismo: só entraram as imagens que parecem fotografia de verdade. As mais “ilustradas”, por mais bonitas que fossem, ficaram de fora — num filme, elas quebram a credibilidade de todas as outras.
O segundo critério foi o elenco. Um clã tem homens, mulheres e crianças, e o filme precisava mostrar isso com equilíbrio, sem que a marca parecesse falar com um só público. No filme de 60 segundos entraram 8 cenas com mulheres, 8 com homens e 3 com crianças. Na versão final, mais curta, ficaram as imagens mais fortes — as cinco que você vê na galeria no fim deste texto, cada uma virando uma cena.
Roteiro e storyboard: o filme existe no papel primeiro
Com as imagens escolhidas, veio o roteiro. A primeira versão do filme tem 60 segundos e cinco atos: a estrada, com pessoas sozinhas em movimento; o reconhecimento, nos sinais que um membro do clã identifica — um olhar, o ronco do motor, o couro gasto; a virada, com a frase “não é sobre roupa”; a herança, do veterano às crianças; e a assinatura, com o logo e o site.
O roteiro técnico separa o filme em 16 cenas, cada uma com a imagem, o movimento de câmera, a duração e o letreiro. O texto do letreiro é um manifesto curto: “Ninguém chega aqui por acaso. A estrada escolhe. O asfalto ensina.” A tipografia é a da marca, TT Fellows, com o fio amarelo da Klan como assinatura gráfica. Quando o storyboard está pronto, o filme já existe — falta só ele se mexer.
Cada cena desenhada antes de existir
Antes de ir para a edição, cada cena virou um quadro-chave em Photoshop, em 1920×1080 e em camadas: a foto, uma sombra de leitura para o texto respirar, a vinheta, o fio amarelo e o letreiro em texto editável. Assim eu decido enquadramento, peso da tipografia e posição da frase com calma, olhando o quadro parado, e não no meio da linha do tempo.
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Foi também aqui que se resolveram as fotos verticais. Num filme horizontal, uma foto em pé esticada perde nitidez. A solução foi um layout editorial dividido: a foto entra inteira de um lado e o outro fica no preto, com o texto. Ela mantém a qualidade e ainda ganha cara de página de revista.
Da foto ao movimento, com IA
Para a versão final, eu queria mais impacto e mais vida. Para isso, as imagens escolhidas viraram vídeo. Cada clipe foi gerado com IA no Higgsfield (modelo Seedance 2.5, em 1080p) a partir de uma única foto editorial, com uma ação simples e verdadeira para quem anda de moto: o veterano subindo na chopper no mirante, o vento e o mar na estrada do litoral, ela subindo na moto ao pôr do sol, ele subindo na Fat Boy no loft e, no clipe da imagem acima, o motociclista virando o rosto e encarando a câmera.
A regra aqui é a mesma da curadoria: o movimento tem que ser crível. Uma ação curta, de poucos segundos, convence muito mais do que uma cena longa e complicada. E como cada clipe nasce de uma imagem que já tinha passado pelo crivo do realismo, o resultado conversa com o resto do filme sem parecer de outro mundo.
A montagem na batida
A trilha é do acervo do próprio cliente: um rock energético, em torno de 120 batidas por minuto. Toda a montagem obedece a ela. Cada corte cai no tempo da música, e cada frase do manifesto entra grande, em TT Fellows Black, com as palavras-chave no amarelo da marca — a leitura acontece no ritmo da trilha, palavra por palavra.
A edição foi montada no Premiere em camadas — uma pista para cada elemento, com os textos editáveis — para que qualquer ajuste depois seja simples, sem refazer o filme. Primeiro veio o filme de 60 segundos, mais contemplativo. Depois vieram cortes mais curtos e diretos, até a versão final de 20 segundos — a que está no portfólio e no fim deste texto.
Uma versão para cada lugar
O mesmo material rende peças diferentes quando o projeto já nasce organizado. A versão com o manifesto é a da campanha, para redes e veiculação. E existe também uma versão sem texto, só com as imagens e o movimento — é ela que hoje roda no banner de vídeo do nosso site, por trás da frase “Histórias que prendem”.
Tudo sai em 1920×1080, em duas versões de arquivo: uma de alta qualidade, para veicular e reeditar, e uma leve, para redes e site. É um detalhe técnico, mas é ele que faz o filme rodar bem no celular de quem vê.
Olhando de longe, o fluxo é simples: uma ideia forte, um acervo bem curado, um roteiro, cenas desenhadas antes da edição, movimento só onde ele acrescenta e uma montagem que respeita a música. A IA entra como ferramenta em uma etapa, e não como atalho para pular as outras.
Se a sua marca já tem imagens e ainda não tem um filme, talvez ela esteja mais perto disso do que parece. É exatamente esse tipo de projeto que eu gosto de conduzir na Cores & Sons.
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