Ninguém me avisou que o avião ia embora. Um dia eu estava dentro, com tudo funcionando; no outro, o chão tinha sumido e o mercado inteiro parecia falar uma língua nova. Esta é a história de como a queda virou direção — e do que aprendi no caminho até abrir o paraquedas.
Tem uma sensação específica que quem trabalha com criação vai reconhecer na hora: você domina o seu ofício, entrega bem, tem cliente satisfeito — e mesmo assim sente que o chão está se movendo debaixo dos pés. Não é medo de não saber fazer. É a suspeita incômoda de que o que você sabe fazer talvez não seja mais o que o mundo está pedindo.
Foi assim que a inteligência artificial chegou pra mim. Não como uma ferramenta nova, dessas que a gente aprende num fim de semana. Chegou como um empurrão. E de repente eu estava fora do avião.
A queda
A primeira reação foi a pior possível: tentar segurar. Achei que bastava aprender os programas novos, acompanhar o assunto, colocar “com IA” na descrição dos serviços e seguir a vida. Levei um tempo até entender que isso era o equivalente a agitar os braços no ar achando que ia voltar pra dentro da aeronave.
O avião tinha ido embora. E ele não volta.
Olhando pra cima naqueles primeiros meses, o que eu sentia não era exatamente medo de cair. Era luto. Anos construindo um jeito de trabalhar — o olhar, a mão, o tempo de edição, a intuição de enquadramento que só se ganha errando muito — e a impressão de que tudo aquilo tinha virado commodity da noite pro dia.
O primeiro insight
A virada veio de uma percepção quase boba, dessas que demoram a chegar porque são simples demais: queda e direção não são a mesma coisa.
Eu estava caindo, sim. Mas quem cai de paraquedas também está indo pra algum lugar. A diferença entre despencar e planar não está na altura nem na velocidade — está em ter algo que transforme a queda em trajetória.
E aí a pergunta mudou. Parou de ser “como eu me protejo da IA?” e virou “o que eu tenho que ela não tem?”.
A resposta apareceu rápido, porque estava comigo o tempo inteiro: critério. A máquina gera mil imagens em um minuto. Ela não sabe qual das mil serve para aquela marca, naquele momento, para aquele público, dentro daquela estratégia. Isso não é técnica. É repertório — o acúmulo de ter conversado com muita gente, de ter errado escolhas e entendido por que erraram.
Quando a IA virou estrutura
Foi quando parei de tratar a inteligência artificial como concorrente e passei a usá-la como andaime que tudo destravou.
Ela não substituiu meu olho. Ela devolveu meu tempo. As tarefas que consumiam minhas melhores horas — organizar, catalogar, transcrever, versionar para dez formatos diferentes, escrever a quinta variação de uma legenda — passaram a acontecer em segundo plano. E o que sobra quando isso sai da frente é justamente a parte que só eu podia fazer: pensar o que a marca precisa dizer.
Uso IA hoje em quase todo processo. Nenhuma vez para decidir. Sempre para acelerar o que já foi decidido.
Antes do site, a marca
Aqui está o erro que quase cometi, e que vejo muita gente cometendo agora: querer resolver com ferramenta um problema que é de posicionamento.
Eu ia refazer o site. Site novo, bonito, rápido, moderno. Já tinha até começado. Até que parei e me fiz a pergunta que vinha evitando: site novo dizendo o quê?
Porque havia um problema anterior ao site. Durante anos me apresentei como produtora de audiovisual — foto, vídeo, edição. Não era mentira. Mas também não era a coisa mais valiosa que eu entregava. O que os bons clientes compravam de mim não era um vídeo. Era alguém que organizasse a comunicação deles e deixasse aquilo fluido, coerente, com uma linha só.
O vídeo é a ferramenta. A foto é a ferramenta. O que eu vendo é clareza.
Demorei tempo demais pra conseguir escrever essa frase. E ela mudou tudo o que veio depois.
Depois, a máquina
Com o posicionamento resolvido, o site parou de ser um problema de design e virou um problema de engenharia — desses que dá gosto de resolver.
É isso que a Cores & Sons organiza na prática. Quero fazer isso na minha empresa →
Reconstruí tudo do zero, do WordPress para um site estático: mais rápido, sem banco de dados, sem plugin quebrando, sem atualização de madrugada. Portfólio organizado, cada projeto no lugar certo, tudo carregando em milissegundos.
Mas o site é só a vitrine. O que interessa é o que ficou por trás dele.
O ecossistema
Essa foi a parte que ninguém vê e que mudou o jogo. Analytics, anúncios, perfil da empresa, formulário de contato, WhatsApp — tudo conectado, medindo a mesma coisa, conversando entre si.
Antes, eu tinha achismo. “Acho que veio do Instagram.” “Acho que aquele post funcionou.”
Agora eu sei de onde veio cada conversa. Sei qual palavra alguém digitou no Google antes de me chamar. Sei quanto custou aquele contato. E quando se sabe disso, para-se de apostar e começa-se a decidir.
É a diferença entre esperar ser descoberto e operar um sistema.
Exoesqueleto, não substituto
É a melhor imagem que encontrei pra explicar o que a IA virou pra mim: um exoesqueleto.
Exoesqueleto não anda sozinho. Ele não decide o caminho. Ele multiplica a força de quem está dentro. Se não tiver ninguém ali, é sucata cara.
Por isso não me preocupa mais que qualquer pessoa tenha acesso às mesmas ferramentas que eu. Ferramenta igual, repertório diferente, resultado diferente. Sempre foi assim — quando a fotografia digital chegou, todo mundo passou a ter câmera, e nem por isso todo mundo virou fotógrafo.
A pergunta nunca foi quem tem a melhor ferramenta. É quem sabe o que fazer com ela.
A aterrissagem
Hoje eu olho pra trás e vejo que aquele empurrão foi a melhor coisa que aconteceu com o meu trabalho. Não porque a queda tenha sido confortável — não foi, e não vou romantizar isso. Teve mês de dúvida real, de olhar pro futuro sem saber se ainda havia lugar pra mim ali.
Mas a queda me obrigou a responder uma pergunta que eu vinha adiando havia anos: afinal, o que é mesmo que eu faço?
Se não tivesse sido empurrado, provavelmente ainda estaria confortável no avião, me apresentando como produtora de vídeo, competindo por preço com quem faz vídeo, sem perceber que o avião estava indo pra um lugar onde eu não queria pousar.
Se você está caindo agora
Três coisas que eu diria pra mim mesmo no começo dessa queda:
- Pare de agitar os braços. Tentar voltar pro que era gasta a energia que você vai precisar pra abrir o paraquedas. O mercado antigo não volta, e tudo bem.
- Descubra o que você faz que a máquina não faz. Não é a técnica — a técnica ela copia. É o critério, o repertório, a leitura de contexto, a capacidade de dizer “não é isso” e saber por quê.
- Resolva o posicionamento antes da ferramenta. Site novo, IA, automação, tráfego pago: nada disso resolve não saber o que você vende. Só faz você chegar mais rápido no lugar errado.
A queda é obrigatória. O paraquedas é opcional — mas ele existe, e provavelmente você já carrega o seu há anos, sem ter percebido.
Se essa história parece com a sua e você quer conversar sobre como organizar a comunicação da sua empresa, é só me chamar. Eu já caí. Conheço o caminho até o chão.
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É o que eu faço: estratégia, conteúdo, audiovisual e IA num fluxo só, com uma linha visual consistente. Me conta o momento da sua marca e eu desenho o caminho.